Olho de Vidro
Um manifesto sonoro e visceral sobre a uberização e a desumanização do trabalho moderno. Através da trágica jornada de dois entregadores de aplicativo, a faixa confronta a frieza implacável do algoritmo — o "olho de vidro" — com o calor da solidariedade humana, denunciando a falácia da meritocracia que ignora o luto em nome do lucro.
Noite na cidade é iluminada,
Por celulares, os pontos do mapa
E João na moto, “enlabutado”,
Cachorro correndo atrás do rabo.
Um olho observa bem alerta
Olha a rota, o tempo e o lucro
Não é cuidado, é corda que aperta,
Chicote de fibra do engenho mudo.
Olho de vidro, mão de martelo,
É ele quem sabe o que é "certo".
Não tem o quê e nem o talvez
Pra nunca chegar a nossa vez
Tem suas regras e suas convenções.
É um país sobre todas as nações.
De repente o amigo beijou o chão...
Frederico tombou, espalhando a refeição
João trava o tempo, e não quer crer
Aplicativo reclama, e ele nem vê.
Com Frederico inerte no chão
Aquele irmão que era pura vida,
Que bobeira! Que mole! Meu irmão!
Tentou "sair" da curva, tomou batida!
Abraça o amigo e viaja no tempo
Lembra risadas e o gol que perdeu
Viu ele na faculdade que não mais
Aquele sonho do Direito, ali jaz.
Com olho de vidro não tem perdão,
Só quer que se chegue no fim da missão.
O mundo fica incerto sem recursos.
Não se pode viver só de discursos.
João segura a mão que perde o calor
Sistema não afaga mão de “perdedor”
Monstro do mérito, filho do sistema
Não tem política de ajuda que o emenda
O curto-circuito do sistema é João,
Acolheu sua dor por perder seu irmão.
Olho de vidro, mão de martelo,
É ele quem sabe o que é "certo".
Não tem o quê e nem o talvez
Pra nunca chegar a nossa vez
Tem suas regras e suas convenções.
É um país sobre todas as nações.


