O Balde
Inspirada no conto homônimo do livro "Mulheres Fortes Não Ganham Flores", de Tatiana Pastorello, a faixa narra a dura rotina de uma mãe no sertão profundo e a virada histórica trazida pelo programa de cisternas. O velho balde, outrora símbolo de um fardo pesado, ganha lugar de honra na sala como um monumento de gratidão pelo passado superado e pelo futuro conquistado.
Um balde velho no meio da sala
A presença dele a caçula chateava
Pra que serve? Queria saber.
O que disse a ela, digo pra você.
Achei que não chegava nos trinta
A vida de muita carestia
Eu, marido, filho e as filhas.
Num cômodo parece heresia.
Marido plantava e fazia seus bicos
Eu na faxina crianças na mão
Doce de umbu adoçava os filhos
Vendendo na feira pra ter o pão
O balde lembra esse passado
Ia leve voltava pesado
Mais de meia hora eu andava
Era esse balde que me ajudava
Em terra de dificuldades
A água tem peso de ouro
O dia mostra a realidade
O sol queima nosso couro
Veio uns moços com novidade.
Marido botou pra correr na hora.
O vizinho falou da oportunidade
A ideia de ter água nos aflora.
Construindo todos juntos
Todos unidos na solução
Plantar futuro era o assunto
A semente era a construção
Cisterna pronta na tarde rubra
Agora era esperar as chuvas
Eu da janela só ficava a mirar
Dentro de mim só brotando sonhar
Nem sei dizer do dia da chuva
Tive medo pra ser honesta
Ainda tinha um certo receio
A água veio e foi só festa.
Onde a justiça cria raiz
A lida fica mais leve e forte
Povo fraterno vive feliz
Deixa aos filhos melhor sorte
Com a água veio a fatura
A casa foi crescendo nessa altura
Banheiro, cozinha com fogão a gás
Os filhos dos estudos foram atrás
O balde emborcado de enfeite ali
Olhar pra ele me faz sorrir
Dou mais valor se não entendem não
Esse balde é minha oração


