Português English Español

O Balde

Inspirada no conto homônimo do livro "Mulheres Fortes Não Ganham Flores", de Tatiana Pastorello, a faixa narra a dura rotina de uma mãe no sertão profundo e a virada histórica trazida pelo programa de cisternas. O velho balde, outrora símbolo de um fardo pesado, ganha lugar de honra na sala como um monumento de gratidão pelo passado superado e pelo futuro conquistado.

Bastidores: "O Balde" é uma homenagem à resiliência das mulheres do semiárido brasileiro e celebra uma das maiores revoluções sociais do Nordeste: a chegada das cisternas de placa. Baseada em um dos contos mais viscerais e elogiados da escritora Tatiana Pastorello, a música foi motivada pelo profundo impacto que essa narrativa causa ao mostrar que o acesso à água não muda apenas a agricultura, mas transforma radicalmente a estrutura familiar, o conforto doméstico e o destino dos jovens. A composição adota a perspectiva de uma mãe que explica à filha caçula o porquê de manter um balde velho emborcado na sala de estar. Através desse diálogo implícito, a música revisita o passado de extrema pobreza, o trabalho duro com o doce de umbu na feira, e o cansaço das caminhadas em busca de água. Ao narrar a resistência inicial à novidade, a comemoração da primeira chuva na cisterna e a consequente expansão da casa e dos estudos dos filhos, "O Balde" deixa de ser um relato de escassez para se tornar um hino de libertação e progresso social.

Um balde velho no meio da sala

A presença dele a caçula chateava

Pra que serve? Queria saber.

O que disse a ela, digo pra você.


Achei que não chegava nos trinta

A vida de muita carestia

Eu, marido, filho e as filhas.

Num cômodo parece heresia.


Marido plantava e fazia seus bicos

Eu na faxina crianças na mão

Doce de umbu adoçava os filhos

Vendendo na feira pra ter o pão


O balde lembra esse passado

Ia leve voltava pesado

Mais de meia hora eu andava

Era esse balde que me ajudava


Em terra de dificuldades

A água tem peso de ouro

O dia mostra a realidade

O sol queima nosso couro


Veio uns moços com novidade.

Marido botou pra correr na hora.

O vizinho falou da oportunidade

A ideia de ter água nos aflora.


Construindo todos juntos

Todos unidos na solução

Plantar futuro era o assunto

A semente era a construção


Cisterna pronta na tarde rubra

Agora era esperar as chuvas

Eu da janela só ficava a mirar

Dentro de mim só brotando sonhar


Nem sei dizer do dia da chuva

Tive medo pra ser honesta

Ainda tinha um certo receio

A água veio e foi só festa.


Onde a justiça cria raiz

A lida fica mais leve e forte

Povo fraterno vive feliz

Deixa aos filhos melhor sorte


Com a água veio a fatura

A casa foi crescendo nessa altura

Banheiro, cozinha com fogão a gás

Os filhos dos estudos foram atrás


O balde emborcado de enfeite ali

Olhar pra ele me faz sorrir

Dou mais valor se não entendem não

Esse balde é minha oração